
Um conto para os piores dias de uma vida, um conto que conto para todos que passam por aqui. A história de uma menina da qual eu tratei, por alguns minutos e confesso, mas foram os mais produtivos da minha carreira. Ela veio acompanhada e praticamente obrigada pela mãe que dizia que a menina precisava de sérios tratamentos psicológicos, A menina dizia querer somente voltar pra casa. A mãe aflita ficava contando com insistência na internação da menina as confusões que ela causara. Ela está amando um homem! A mãe cuspia na minha mesa essa frase como se fosse a maior indecência que alguém poderia se permitir. Como uma magrela faltando por nascer todos os dentes poderia ter esse sentimento tão avançado. A menina mal me olhava nos olhos, estava claro o desconforto causado pela falta de delicadeza da mãe. Ela não negava ter esse sentimento, mas não quis me dizer de quem se tratava. Durante os floreios da mãe me perguntava se já não tinha visto essa menina por aqui, seu rosto me dizia alguma lembrança que eu não conseguia recorrer. Daqui do hospital não pode ser, eu me lembraria. Como não tive espaço para analisar a situação com tanto desespero em volta de uma frase, liberei e pedi que aparece-se no dia seguinte, mas que analisa-se a questão em casa. Fui para casa sem esquecer o constrangimento que encontrei naqueles olhinhos miúdos.
Cheguei dei atenção ao meu cachorro que logo veio em minha direção, tirei a peça de enforco e a minha roupa branca. Cansado fui ao banheiro me lavar de todos os problemas que encarei no dia. Às vezes é difícil ser um psiquiatra, analisar exige um certo apego pelo assunto, fica bem arriscado não se perder nos problemas dos outros. Mas dessa vez um problema específico dava assunto para minha cabeça, a situação da menina que ama um homem como diz a mãe que se vê livre de defeitos. No dia seguinte, quando retornei a tratar da menina que voltou acompanhada do autoritarismo da mãe, resolvi ter um momento a sós com ela. Pedi que se retirasse, e com uma cara de poucos amigos a mãe saiu da minha sala. Ficamos ela e eu. Assim que a mãe saiu, começou a chorar, dizia que a mãe estava exagerando. Retornei na incógnita de quem era o tal homem alvo do amor de uma menina mal iniciada na vida. Ela não me respondeu. Por um momento eu pensei que era eu. Foi aí, que eu me lembrei daqueles olhos.